Vc é a mídia - Colaboração, participação do usuário. Existe uma definição para tal?
Tiago Dória - Atualmente as duas expressões querem dizer a mesma coisa. Ajudar na construção da informação, de um projeto.
Vc é a mídia - O que faz uma pessoa, comum, praticar da construção da informação?
Dória - Existem diversos motivos - autopromoção, autoconhecimento e desejo de reconhecimento por outros. Enfim, os motivos são bem variados. Um bom projeto de jornalismo colaborativo deve saber a existência desses motivos, e trabalhar em cima deles para motivar e engajar a comunidade a participar da construção da informação.
Vc é a mídia - O que acontece com a colaboração em portais nacionais?
Dória - O contexto do OhMyNews é bem diferente. Na Coréia do Sul, a mídia é vista como conservadora e chapa branca. Existe uma demanda por veículos alternativos de comunicação e o OhMyNews é um deles. Por isso, as pessoas fazem questão de participar do projeto. Aqui, é diferente, o pessoal também reclama muito da cobertura da grande mídia, mas não ao ponto de colocar a mão na massa e começar a produzir as suas próprias matérias e veículos. Acredito que o erro desses projetos de colaboração em portais nacionais é querer aplicar parte do modelo do OhMyNews aqui, no Brasil. Não funciona, é claro. Outro problema é que alguns não têm uma preocupação em gerir a comunidade. Deixam de lado a parte educativa. Poucos se importam em ensinar técnicas de apuração de informação, em realizar oficinas e palestras junto aos seus "leitores-cidadãos-jornalistas".
Vc é a mídia - O OhmyNews possui um projeto há sete anos e é considerado a grande experiência da participação do usuário no processo informacional. Por qual motivo este deu certo?
Dória - Acredito que tenha sido o projeto certo na hora certa. A maioria dos outros projetos pede para o leitor enviar uma informação, publica-se e pronto. Acabou a participação do usuário. Não existe uma participação maior dos usuários, conselho de leitores, oficinas de técnicas de apuração junto a usuários etc.. Enfim, não existe engajamento mais profundo das empresas e portais com a comunidade.
Vc é a mídia - Mídia colaborativa que dá certo é sinônimo de contribuição ao cidadão-repórter?
Dória - Nem sempre. Mídia colaborativa é uma coisa, não precisa estar ligada ao cidadão-repórter. Por exemplo, a organização das fotos do Flickr é feita de forma colaborativa e o serviço em essência não está ligado ao jornalismo cidadão.
Vc é a mídia - A cultura é um aspecto imprescindível para a construção de cidadãos-repórteres?
Dória - Acredito que não a cultura, mas a formação cultural, técnica, emocional etc. Por isso, a importância dos projetos colaborativos terem esse caráter educativo que comentei nas respostas anteriores. Projetos de jornalismo cidadão não devem se resumir a pedir para o leitor enviar informações e matérias. Apesar do autodidatismo fazer parte do DNA das novas mídias, deve existir uma parte educacional: ensinar técnicas de apuração, como utilizar banco de dados e ferramentas online de pesquisa. Enfim, deve existir uma preocupação em gerir a comunidade.
Vc é a mídia - Cinegrafista amador sempre foi um cidadão-repórter?
Dória - Acredito que sim. Para você ver como esse conceito de cidadão-repórter é antigo. Na verdade, participação dos leitores e mídias colaborativas sempre existiram. A diferença é que hoje é em maior escala.
Vc é a mídia - Você considera a colaboração amadora no Brasil?
Dória - Não considero amadora, mas incipiente. As empresas de mídia incentivam muito pouco o usuário a participar. Não fornecem conhecimento nem ferramentas decentes para a participação dos usuários. Enfim, acho as pessoas no Brasil muito desmotivadas e sem incentivo a participar de projetos colaborativos. O brasileiro passa muito tempo online, mas participa muito pouco da construção da web.
Vc é a mídia - Jornalismo colaborativo se aproxima do conceito de regionalismo, do jornalismo "hiperlocal"?
Dória - Não. São conceitos diferentes. O que acontece é que alguns projetos de jornalismo participativo, como o Loudoun Extra, [http://loudounextra.washingtonpost.com], do Washington Post, estão buscando trabalhar com o jornalismo hiperlocal. Isso acontece por que existe um custo para o jornal montar uma redação e enviar "mão de obra" para locais mais remotos, aí aposta-se no jornalismo hiperlocal feito por cidadãos desses "locais onde o jornalismo não chega".
Vc é a mídia - O crescimento do jornalismo-cidadão altera a produção e futuro do jornalista?
Dória - Teoricamente, a participação do usuário é um instrumento para fazer um jornalismo melhor, portanto o jornalista-cidadão altera de forma positiva o futuro do jornalista. Em nenhum momento o trabalho do jornalista será dispensado. Pelo contrário, o jornalismo-cidadão deixa mais evidente a necessidade de um especialista em informação. Aliás, acredito que, no futuro, não vai existir mais essa divisão entre jornalismo-cidadão e jornalismo tradicional. No final, tudo será jornalismo. A gente vai se preocupar menos em quem produz a informação - amador ou profissional - e mais em como e onde ela é consumida.
Vc é a mídia - RadarCultura, Overmundo, Viva São Paulo. Três exemplos de colaboração de respeito no país. Por quais motivos eles são mais bem-sucedidos que os canais de participação de usuário nas mídias on-line?
Dória - É bem simples, esses três cases têm uma preocupação muito grande em acompanhar a comunidade. Por trás desses projetos existem profissionais preocupados com a gestão da comunidade. Esses canais de participação de usuário são projetos orgânicos e em constante mutação, por isso necessitam de um acompanhamento minucioso. Enfim, são diferentes de outros projetos em que não existem uma preocupação editorial, nem de acompanhamento e crescimento da comunidade. Acho que o principal diferencial deles é isso: existe um conceito e uma preocupação em gerir a comunidade que eu não vejo em outros projetos. Gestão de comunidades é algo fundamental, caso contrário, o projeto vira uma simples ferramenta de autopromoção, relevante só para ganha destaque nele.