Confira o podcast da entrevista:
Podcast 1Vc é a mídia – Qual foi o período que você viveu na Coréia do Sul e como você pode explicar esse caráter cultural digital da população e a interferência do OhmyNews na população?
Lúcia Seale – Morei na Coréia do Sul durante quase três anos. Cheguei ao país em janeiro de 2004 e deixei a região em outubro de 2006. Ah, claro, tudo a trabalho. Durante meu tempo de permanência no continente asiático, constatei algumas coisas. Logo em primeiro ano na Coréia, percebi que o presidente Roh Moo-hyun foi eleito por uma geração totalmente digital, com instrumentos como ferramentas de blogs, fóruns de discussão e o OhmyNews. Tanto é que sua primeira entrevista como novo chefe de estado foi ao próprio OhmyNews. Isso foi um grande choque com a mídia tradicional da Coréia.
Vc é a mídia – E a questão cultural do coreano. É bem diferente do brasileiro?
Lúcia – Com certeza. Em 2004, eles (os coreanos) já tinham plena noção que todos os atos vistos nas ruas poderiam tornar-se noticias. Tem um episódio bem interessante que aconteceu no metrô e causou grande impacto aos sul-coreanos. Uma menina estava com um cachorro no metrô e seu animal simplesmente defecou no local. Ela, patricinha, simplesmente não limpou absolutamente nada e um senhor, de mais ou menos 60 anos, se agachou e fez o serviço da garota. Durante este momento, alguém gravou ou tirou foto de toda situação. Esse vídeo passou por todos os sul-coreanos e a jovem teve que mudar de cidade, nome, pois foi massacrada pela população, que respeita toda aquela questão da hierarquia. A situação com tecnologia é bem complexa e interessante. Eu e meu marido éramos vistos como extraterrestres por não termos um celular! Trabalhávamos juntos, no mesmo local e por isso não achamos necessário comprar um. Mas todos acharam bem estranho a não-aquisição de um aparelho. Até um senhor de 90 anos possui um celular e, durante sua passagem no metrô, brinca de jogos. É extremamente espantoso isso. Tudo se faz pela internet, hoje, na Coréia do Sul. O mundo virtual é extremamente forte.
Vc é a mídia – Durante esses três anos de passagem na Coréia do Sul, você notou diferenças na imprensa considerada tradicional?
Lúcia – Nenhum jornal é popular na Coréia do Sul. Eles lêem a notícia através de um celular. A notícia não chega mais pelo papel. Tudo por satélite. Olha, o único jornal que vi os sul-coreanos lendo foi o Metro. Este mesmo veículo que existe hoje no Brasil. Mas é uma leitura apenas para durante viagens no metrô mesmo. Jornal de papel é considerado antigo lá.
Vc é a mídia – E o OhmyNews. Existe uma versão impressa?
Lúcia – Olha, existe sim. Mas em três anos nunca vi alguém lendo. Não sou aquela pessoa atenta, de olhar na banca de jornal. Posso estar errada, mas o que eu lembro é só conhecê-lo.
Vc é a mídia – O ingresso digital da população alterou a formatação da mídia impressa?
Lúcia – Com certeza. Hoje, os jornais sul-coreanos possuem aquelas chamadas notas curtas. Nada mais. Você quer ampliar sua leitura é só acessar a internet. E outra. Eles não tem tempo para ler tanta notícia. Isso é culpa da superinformação. Trabalham, em média, 12 horas por dia. O fato curioso é que nenhum funcionário pode ir embora antes do seu chefe. Por exemplo, caso seu chefe saía às 10 horas da noite, você deve sair depois. Enquanto isso, ocioso, o funcionário acaba navegando na internet, único lazer permitido durante a prática profissional.
Vc é a mídia – A opinião pública sul-coreana é um grande objeto de estudo. O que você pensa sobre a formação do país?
Lúcia – Eu tenho um ponto de vista crítico em relação ao sul-coreanos. Eles pensam muito coletivamente. Não há um espírito individual. É difícil você conhecer alguém com uma opinião diferente. É muito lugar-comum, entende? O que é lido na mídia torna-se argumento pessoal. A visão coletiva tem que ser sólida e deve permanecer. Tudo isso graças a educação severa, disciplinada e metódica. É engraçado a linearidade deles. Vocês acreditam que todos tiram férias na mesma época? Logo, há um período impossível de viajar. E tudo sem reclamar. Isso tudo foi um grande choque pra nós (Lúcia e marido). Dos países da Ásia, é o local mais difícil para a permanência do brasileiro.
Vc é a mídia – O espírito coletivo foi ressaltado por você durante a conversa. Essa estrutura é vista na mudança da presidência do país e o OhmyNews foi determinante para reformulações na sociedade?
Lúcia – Sem dúvida. Sul-coreano adora futuro. Futuro, na época, era o OhmyNews. Então, os sul-coreanos colocaram como objetivo a busca de eleger o primeiro presidente da Era digital. E se orgulham muito por isso.
Vc é a mídia – A intromissão do OhmyNews pode ser considerada uma revolução?
Lúcia – Eu acho que é uma grande revolução. Para a comunicação. O OhmyNews entrou para a história recente da Coréia do Sul.
Vc é a mídia – Como foi a atuação do presidente sul-coreano “eleito” pelo OhmyNews?
Lúcia – Olha eu não acompanhei muito esse período político, mas segundo as tradicionais conversas de trabalho, os sul-coreanos estavam descontentes com a política econômica de Roh Moo-hyun. Tudo era motivo para a criação de um escândalo no país. Até uma cirurgia plástica.
Vc é a mídia – A queda de popularidade do até então presidente Roh Moo-hyun afetou o OhmyNews?
Lúcia – Com certeza. Toda essa geração virtual começou a ser questionada.As pessoas mais velhas, respeitadas por todos os sul-coreanos, colocaram em dúvida o futuro do país com essa população jovem. Mas o resultado da democracia do local já veio. A eleição do atual presidente (Lee Myung-bak, ex-executivo da Hyundai) confirmou a revolta de parte da população com as pessoas que elegeram Roh. Mas o OhmyNews continua e vai continuar como um sucesso. Sofreu problemas com injeção de dinheiro, mas é ainda bem respeitado.
Vc é a mídia – O OhmyNews é mais importante na Coréia do Sul ou no exterior?
Lúcia – Sinceramente, só ouvi falar do OhmyNews na Coréia do Sul. Antes de viajar para o continente asiático, vivi no Havaí. Lá, pelo menos, nunca tinha ouvido falar dele. Mas isso é uma questão muito pessoal e fragmentada. Depende do interesse de cada pessoa. Quem gosta e estuda jornalismo, é obrigatório conhecê-lo. Hoje, o OhmyNews tem um retorno, mas sua situação financeira não é agradável. Fizeram até uma escola agora lá (risos).
Vc é a mídia – Chegou ao outro tema de nossa pergunta. A escola de Jornalismo Cidadão. É outro projeto interessante e de aspecto “revolucionário”?
Lúcia – Sabe a escola de funcionários do McDonald´s? Eu vejo isso. Mas de uma forma um pouco mais aberta. Mas é uma iniciativa ao menos engraçada. Eles instalaram uma escola no meio do mato. E levam as pessoas ao local para produção de conteúdo. Mas você não concorda que pode produzir isso em qualquer lugar? Mas ainda acredita que muita informação esteja em uma rua, por exemplo. O confinamento só prejudica a colaboração.
Vc é a mídia – Mas a criação de uma escola de Jornalismo Cidadão não é uma resposta às faculdades de Jornalismo?
Lúcia – Não sei. Sinceramente nem sei como é o processo de uma faculdade de Comunicação. Quando li a notícia sobre a inauguração da escola de Jornalismo Cidadão. lembrei do McDonald´s. Mas isso é um ponto de vista de quem estudou em Universidade Federal. Quando estudava, a diversidade cultural e de informação era imensa. Hoje, é diferente. Uma escola de Jornalismo Cidadão está subordinada a algumas coisas. A liberdade de expressão é fragmentada. Você deve seguir regras. Mas não tenho uma visão de uma escola de Jornalismo. Enfim, a Coréia do Sul é um país curioso. Todos são iguais e quase não há desigualdade. Todos possuem um carro, uma casa, um celular. Todos fazem as mesmas coisas. A diferença de salário de um faxineiro para um chefe não é grande e isso contribui para uma condição de vida igualitária. Hoje, quem possui grande concentração de dinheiro são as igrejas. A Coréia do Sul é o país mais católico da Ásia, mas os evangélicos predominam. O budismo está acabando. O prédio em que morava limitava-se a quatro pontos. Claro, quatro igrejas. Imensas. Catedrais. Enormes. Ir a Igreja é um evento social. Você pode fazer ginástica, compras. Tudo no mesmo local. O Natal, dia 25 de dezembro, por exemplo. Data de nascimento de Jesus. Na Coréia do Sul, é um dia comum. Dia de trabalho. Não está ainda no imaginário do sul-coreanos datas como essa. É uma coisa muita nova.