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Podcast entevista André AvorioVc é a mídia – Juliano Spyer, que coordena com você o Radar Cultura, escreveu em seu blog sobre o motivo do Jornalismo Colaborativo não “decolar” nos portais nacionais. O que você considera essencial que ainda falta como ingrediente para a excelência da construção do cidadão neste processo informacional.
André Avorio - Eu te retorno a pergunta: o que seria “decolar”?
Vc é a mídia - Decolar é uma expressão do Juliano. O que falta para o cidadão ajudar no processo informacional e criar um bom espaço virtual destinado à colaboração?
Avorio - Olha, eu sou bastante cético sobre o assunto. Não acredito na estratégia que os portais criaram para definir o Jornalismo Colaborativo. Ainda não sei o que é “dar certo”. Não sei qual objetivo de cada formato, mas quando você pensa em colaboração, acredito, e muito, na autopublicação. Pelo fato de você produzir conteúdo que lhe interessa. Isso é muito mais poderoso e revolucionário. Sigo esse caminho. A criação de ferramentas tecnológicas que promovem e a ampliam o poder do cidadão.
Vc é a mídia - Qual a opinião de vocês sobre o OhmyNews? É um dos principais serviços destinados ao Jornalismo Colaborativo?
Avorio - É simples. Eles propõem uma linha editorial muito bacana. O OhmyNews não recebe notícias que a “grande mídia” cobre. Fora do lugar-comum. Uma grande estratégia. Eles colocaram isso como evidência desde o início do projeto e possui um retorno. Retornando até a primeira pergunta, os portais buscam apenas um retorno: a audiência, o pageview. Isso não interessa às pessoas. Não acaba cumprindo um papel interessante.
Vc é a mídia - O OhmyNews lançou, ao final de 2007, a primeira Escola de cidadão-repórter. O que você pensa sobre a instalação da escola?
Avorio - Não cheguei a olhar, com detalhes, o programa e os objetivos. Se a iniciativa do OhmyNews for a disseminação e união entre tecnologia e público, a idéia é fantástica.
Vc é a mídia - Sobre mídias colaborativas em geral. O que dá certo lá fora que, quando chega ao Brasil, não tem o mesmo resultado?
Avorio - Cara, uma coisa que eu vi recentemente (há um ano), e achei fantástico foi empréstimo bancário pela internet em base de comunidades. É assim: um sujeito se oferece e diz que possui 50 reais para emprestar e gostaria de ganhar uma taxa x durante seis meses. Mídia social é isso. Transformar bancos em mídias colaborativas. As pessoas ficam em contato, a partir dos termos de uso e regulamento, e realizam o empréstimo. Isso é revolucionário. Conectar pessoas é a chave de tudo.
Vc é a mídia - Vocês consideram imprescindíveis a construção de um encontro off-line entre os considerados produtores de conteúdo de ambientes virtuais colaborativos?
Avorio - Eu sou entusiasta da internet. Mas o que mais me encanta são as pessoas. A internet é mais um meio de encontro de pessoas. Os projetos que têm isso como objetivo acabam dando certo. Quando elas se conhecem, muda tudo. Você citou o Viva SP, do Spyer. É fantástico compartilhar idéias, histórias. No caso do Barcamp. Deu muito certo no Brasil. Lá em Floripa, por exemplo. Tinha um cara com o mesmo interesse do seu grupo em Jornalismo Colaborativo. Mas ninguém compartilhava as mesmas idéias na região. A criação do Barcamp em Santa Catarina promoveu o encontro de idéias e, hoje, ele conversa com o pessoal em grupos de e-mail sobre Jornalismo Colaborativo. Esse uso da internet é importante.
Vc é a mídia - RadarCultura e Viva São Paulo. Dois dos principais exemplos de colaboração de respeito no país. Como é essa experiência e por quais motivos eles são mais bem-sucedidos que os canais de participação de usuário nas mídias on-line?
Avorio - O RadarCultura foi criado em outubro de 2007. O objetivo era repensar e reformular o projeto da Rádio Cultura AM, da Fundação Padre Anchieta. Eu e o Juliano Spyer recebemos um convite da entidade e concordamos com o planejamento do projeto. A emissora não tinha um posicionamento, possuía um custo elevado e uma quantidade limitada de ouvintes. Nós tínhamos uma série de problemas para resolver e a nossa arma foi a ferramenta de colaboração. Começamos com um programa diário, das 20h às 22h. Quem fazia a programação era o ouvinte/internauta do Radar Cultura. Neste momento, a pessoa indicava músicas, criava playlists. Tudo para produzir conteúdo. A receptividade do público foi muito legal no começo devido ao lançamento. Isso acabou “catapultando” a programação e hoje temos cinco horas de programação, de segunda à sexta, além de duas horas de finais de semana. O crescimento atraiu pessoas e trouxe trabalho. Criamos um espaço para o indivíduo comum se expressar através da música. Isso hoje preenche cinco horas diárias. O RadarCultura começou pontualmente como um programa de rádio e hoje funciona como uma plataforma de colaboração. O acervo de mais de dez mil músicas cadastradas tornou-se um ambiente de pesquisas. Hoje, a estrutura do site causou a integração de vários programas da Rede Cultura. Conteúdo da comunidade se mistura com um conteúdo da Fundação Padre Anchieta. O RadarCultura é focado nas pessoas. Isso trouxe retorno a nós. Nossa iniciativa é pioneira na América Latina e novos projetos surgirão. Bandas independentes ganharão espaço. Quem vai definir tudo isso será a comunidade em torno do programa. Nada de lobby, favorecimentos ou editor que hierarquiza músicas.