Entrevista Ana Maria Brambilla

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Entrevista com Ana Maria Brambilla, editora assistente da Editora Abril, jornalista, professora das Faculdade Cásper Líbero, do Centro Universitário Sant´Anna e mestre em comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul no dia 27/03 de 2008.

Confira os podcasts da entrevista:

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Vceamidia - Colaboração, participação do usuário, cidadão-repórter. Existe uma definição para tal?

Parece-me que até hoje foi muito usado cidadão-repórter, termo que encontrei, pela primeira vez, no OhmyNews. Acredito que seja a denominação apropriada. Melhor do que, por exemplo, repórter-cidadão. Isso exclui o caráter de cidadania dos repórteres profissionais.

Vceamidia - E cidadão-jornalista (citizen-journalist)?

De maneira alguma (risos). O cidadão não possui um compromisso com o jornalismo. Repórter é uma das funções que o jornalista executa, que faz parte da identidade profissional. A reportagem pode ser produzida por qualquer pessoa. Jornalista possui uma amplitude maior. Outras tarefas não são feitas e compartilhadas pessoas comuns.

Vceamidia - O que faz uma pessoa, comum, praticar da construção da informação?

Depende muito da cultura do lugar. Não construí uma idéia aqui no Brasil, por exemplo. Mas acredito que as pessoas colaboram muito por denúncia, reclamações, opiniões e trivialidades, no caso do VC no G1. Agora, em relação ao OhmyNews, é totalmente diferente. Existe uma preocupação social maior devido à amplitude.

Vceamidia - Tiago Dória, blogueiro e jornalista, nos concedeu uma entrevista e disse que o problema dos portais nacionais era imitar parte do modelo do OhmyNews. Você concorda?

De maneira alguma. Se os portais pretendem fazer isso, não estão conseguindo. Minha Noticia, VC no G1, Fotorepórter. Todos não possuem nenhuma característica vinculada ao OhmyNews. Os espaços virtuais destacados possuem atualização baixa, falta de contato com o colaborador, não há sistemas para gerir e criar uma comunidade, o cidadão não consegue acompanhar o produto final de seu conteúdo, não existe remuneração, exceto alguns casos do Fotorepórter. A única característica é a liberdade de produção de fatos, acontecimentos, relatos, feitos por pessoas comuns. O OhmyNews é muito mais do que isso.

Vceamidia - O OhmyNews possui um projeto há oito anos e é considerado a grande experiência da participação do usuário no processo informacional. Como foi esse processo de consolidação?

Um processo que dependeu de um trabalho muito detalhado. Detalhado no sentido da seriedade na criação e processo de edição, organização dos fatos, e recrutamento na criação de cidadãos-repórteres. O OhmyNews mantém um vínculo com as pessoas que produzem conteúdo. Isso colaborou para a amplitude do ambiente virtual. Todos os processos culminaram no sucesso de OhmyNews. Eu não conheço nenhum escândalo em torno do OhmyNews. Tudo por ser muito organizado. No Brasil, por exemplo, não sei qual o caminho, a rota da notícia que eu produzo. Eu testei vários serviços colaborativos no país, mas não houve um contato entre cidadão e jornalista. Eles não estão muito preocupados com você. Logo, isso não motiva a construção do cidadão-repórter. Um princípio da colaboração é o contato. Isso o OhmyNews faz muito bem.

Vceamidia - Como foi sua participação no encontro entre cidadãos-repórteres na Coréia do Sul?

Participei em dois anos (2005 e 2006). Estes encontros são produzidos pelo OhmyNews e chamam OhmyNews International Citizen´s Reporteres Fórum. Foi um evento desenvolvido para debater e discutir sobre o Jornalismo Colaborativo no mundo. Existiam, em Seul, cidadãos-repórteres de vários países e pessoas que estudam, praticam e estudam o processo, como o Dan Gilmor e o pessoal do Wikipedia. Até a concorrência esteve por lá. Não se falou apenas sobre colaboração. Discutiu e, muito, sobre mídia tradicional. Cada pessoa falava sobre a situação da imprensa no seu país. Mostrou-se vários sentidos e perspectivas.

Vceamidia - Jornalismo Colaborativo que dá certo é sinônimo de contribuição, premiação financeira ao cidadão-repórter?

Não necessariamente. A remuneração por um trabalho, dependendo do processo, pode complicar o relacionamento entre o noticiário e o colaborador. Podem existir pessoas que escrevam por dinheiro, não por um compromisso social. Mas isso difere do aspecto de residência do cidadão. Na Coréia do Sul, por exemplo, 20 dólares (premiação às vezes destinada ao cidadão-repórter), é impossível comprar um Big-Mac. É muito raro encontrar pessoas que produzem conteúdo por dinheiro. Considero que a premiação é uma contribuição simbólica em cima de um trabalho produzido. Acredito que não seja sinônimo de sucesso. Prefiro premiações de pessoas que colaboram por mês, por exemplo. Tudo para estimular o ambiente da comunidade. Tudo por competição. E extremamente saudável.

Vceamidia - Ana, como foi a situação, polêmica, envolvendo um norte-americano e o Ohmynews? Ele foi até banido, não foi?

Ele se chama Derek Monroe e esteve presente em um dos encontros promovidos pelo OhmyNews (em 2005). Não sei se era jornalista, mas acredito que não. Derek produzia reportagens, boas reportagens. Ele viajava para diversos lugares para produzir um conteúdo. Logo, gastava muito para produzir matérias consideradas boas. Quando ele chegou à Coréia, Derek foi muito expansivo, agradável, mas cometeu um erro. Ele acreditou que seria recompensado, mais uma vez, por todo seu esforço. Mais do que os 20 dólares que recebia por produto. Após o encontro entre cidadãos-repórteres, ficou um contato em grupos de e-mail bem interessante e Derek aproveitou o espaço para denigrir o OhmyNews, pois considerava que a empresa “lucrava” com as matérias produzidas por ele. Mas, Derek esqueceu que quando você se cadastra para tornar-se cidadão-repórtes, existem os termos de uso confirmando a ausência de um laço de emprego entre pessoa comum e empresa jornalística. O OhmyNews, com razão, não tinha obrigação de dar novas contribuições ao Derek. O presidente do grupo tomou uma atitude e, devido às agressões verbais de Derek, o OhmyNews decidiu bani-lo do quadro de cidadãos-repórteres. O caso foi, até certo ponto, interessante. Serviu como experiência. Levantou várias idéias, mas o OhmyNews tomou a atitude correta, acredito.

Vceamidia - Cinegrafista amador sempre foi um cidadão-repórter?

Acredito que sim. Cinegrafista amador pode ser qualquer um de nós. Caso temos uma história pra contar, seja por meio de testemunhos, por exemplo, ele exerce a função de cidadão-repórter.

Vceamidia - Jornalismo colaborativo se aproxima do conceito de regionalismo, do jornalismo "hiperlocal"?

Com certeza. O Jornalismo Colaborativo supre uma lacuna deixada pelas grandes empresas de comunicação. Não é à toa que jornais de bairro ainda sobrevivam. Eu mesmo recebo publicações do Bixiga e são fatos, acontecimentos que provavelmente não vão aparecer no portal do Uol ou lugar algum. Mas eu não condeno a mídia considerada tradicional por isso. Existem os critérios de noticiabilidade. Não podemos esquecer da relevância do conteúdo. É difícil atender as necessidades de todas as pessoas. Por isso que acredito na existência do Jornalismo Colaborativo. Neste ponto lembro, mais uma vez, a história do Village Reporter, criada por Oh Yeon-Ho (fundador do OhmyNews). Ele era um cidadão do interior da Coréia do Sul e durante idas e vindas à sua residência, observava uma casa com uma antena parabólica, lá no meio do mato. Logo, ele refletia: “As pessoas deste local são bem informadas, conhecem todo o contexto político, social do que é transmitido na mídia, como os Estados Unidos, mas não sabem o que acontecem ao redor”. Ho acredita que é imprescindível ter uma pessoa deste Village Reporter. Uma dona-de-casa, um carteiro. Eles transitam pelas ruas e podem construir o Jornalismo Hiperlocal.

Vceamidia - Você possui um ponto de vista bastante crítico sobre o termo jornalístico “cozinhar matéria” (reproduzir uma leitura de um veículo). O que você pensa sobre essas produções no Jornalismo Colaborativo?

Isso acontece muito no Brasil. Mas o cidadão não cria nada. Não possui novidade. Caso eu queira, por exemplo, uma informação sobre a Guerra do Iraque, busco veículos de comunicação tradicionais. Caso eu queira buscar uma informação local, sei que posso encontrar situações no Jornalismo Colaborativo. O pior de tudo é você visitar ambientes virtuais destinados a colaboração e ler produções sobre Guerra do Iraque pior às divulgadas em meios impressos, televisivo e on-line. Então não vejo sentido na reprodução do que já está na mídia.

Vceamidia - O OhmyNews lançou, ao final de 2007, a primeira Escola de cidadão-repórter. Qual é a sua análise sobre a criação?

Foi um anúncio de impacto. É óbvio que a confirmação trouxe comparações à Faculdade de Jornalismo. Sabe aquela discussão sobre diploma? Voltou-se à tona. Procurei Todd (editor de OhmyNews) para saber da situação e ele me disse que não era bem o intuito da Escola. Não existia a pretensão de conferir o diploma a alguém. Os cursos destinados aos cidadãos-repórteres são curtos, às vezes com duração de um dia. O público-alvo é extenso. Não há faixas etárias definidas. O conhecimento trabalhado na escola criada na Coréia do Sul é apenas sobre Jornalismo Colaborativo. É claro que características ensinadas às Universidades de Comunicação serão explicitadas aos alunos, mas é apenas uma especialização. O espaço só estimula ainda mais a criação de cidadãos-repórteres.

Vceamidia - Existe um site destinado à Colaboração que possui a mesma excelência de OhmyNews?

Partindo do pressuposto da operação, acredito que teria. O VC no G1 e Yo Periodista também possuem sistemas próximos ao de OhmyNews. Mas, acredito que o cuidado com o conteúdo e com o cidadão-repórter, não há nenhum semelhante.

Vceamidia - RadarCultura e Viva São Paulo. Dois dos principais exemplos de colaboração de respeito no país. Por quais motivos eles são mais bem-sucedidos que os canais de participação de usuário nas mídias on-line?

Ambos possuem o seu formato, sua idéia. O RadarCultura possui uma proposta editorial diferente. O Viva São Paulo é focado em histórias de vida paulistanas. É bem assim: quero procurar algo, vou ao Google; quero ver vídeos, vou ao Youtube; quero produzir histórias de São Paulo, vou ao Viva SP. Há um único propósito editorial, grande causa do sucesso. Até eu, que não era uma cidadã paulistana, colaborava. Outro fator que contribuiu muito para a fama do serviço foi a aliança com a Rádio Eldorado. O pessoal que coordena o Viva SP soube capturar pessoas para produzir relatos. O público-alvo, idosos, foi conquistado às ondas do rádio. Nada de internet. Outro fator importante são os encontros presenciais. Fato muito importante para a construção de uma comunidade com um laço geograficamente local. Agora, falando sobre o RadarCultura. Ele possui uma maneira de interagir instantânea. Não há conteúdos considerados “longos”. No Brasil, ninguém produz conteúdos de tarefa árdua. O Juliano (Juliano Spyer, organizador do RadarCultura) soube facilitar a vida do colaborador. Os portais nacionais deveriam aprender um pouco com estes dois serviços. Para atrair o leitor, internauta, devemos pedir coisas práticas a eles. Nada de reportagens investigativas. Matérias curtas, enxutas, mais próximas aos cidadãos.

Vceamidia - Você considera os encontros “offline”, vistos no Viva SP e em OhmyNews, imprescindíveis para a Colaboração?

Não acredito que sejam imprescindíveis, mas são importantes. Mas, às vezes, penso que as pessoas não irão fazer um projeto tão coeso ao OhmyNews e Viva SP. A presença física transmite confiança.

Vceamidia - O que você espera sobre o futuro da Colaboração em outros veículos de comunicação?

Não tenho expectativa que a Colaboração tornar-se-á uma marca da impressa eletrônica ou impressa. É um processo da internet. Tudo pela horizontalidade do ambiente virtual. É muito fácil distribuir informação. O caminho mesmo é a mobilidade.

Vceamidia - Pergunta para encerrar a entrevista, Ana. Jornalismo Colaborativo no Brasil é incipiente?

Incipiente é uma característica errada. O Fotorepórter e o Minha Notícia já existem há algum tempo. Estão “velhinhos” na web, mas não houve um amadurecimento. A idade mental de cada é menor do que deveria estar apresentando. Tudo por critérios de noticiabilidade, atualização, contato com o cidadão-repórter, maneira de gratificação, criação de vínculos em comunidades. Não há nada disso que descrevi. Estão sendo administrados como “cabeça de veículo de comunicação de massa”.